Conheça J. Allen Hynek: o astrônomo do Projeto Blue Book

Quando o governo dos EUA chamou o acadêmico para ajudar a investigar os OVNIs, ele era inicialmente um cético. Mas não por muito tempo...

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Astrofísico da Universidade Northwestern J. Allen Hynek, 1966.
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Setembro de 1947, a Força Aérea dos EUA tem um problema. Uma série de relatos sobre objetos misteriosos nos céus deixa o público tenso e os militares perplexos. A Força Aérea precisa descobrir o que está acontecendo e rápido e inicia uma investigação que chama de “Project Sign” (Projeto Sinal).

No início de 1948, a equipe percebe que precisa de algum conhecimento externo para examinar os relatórios que está recebendo – especificamente um astrônomo que pode determinar quais casos são facilmente explicados por fenômenos astronômicos, como planetas, estrelas ou meteoros.

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Para J. Allen Hynek, então aos 37 anos de idade e diretor do Observatório McMillin da Universidade Estadual de Ohio, seria um caso clássico de estar no lugar certo e na hora certa ou, como ele ocasionalmente lamentava, no lugar errado e na hora errada.

O Começo da Aventura

Hynek havia trabalhado para o governo durante a guerra, desenvolvendo novas tecnologias de defesa como o primeiro fusível controlado por rádio, então ele já tinha uma alta autorização de segurança e era a escolha natural.

“Um dia, recebi a visita de vários homens do centro técnico da base da Força Aérea de Wright-Patterson, que ficava a apenas 100 quilômetros de Dayton”, escreveu Hynek mais tarde. “Com algum embaraço óbvio, os homens acabaram trazendo o assunto de ‘discos voadores’ e me perguntaram se eu gostaria de servir como consultor da Força Aérea sobre o assunto. O trabalho não parecia que tomaria muito tempo, então eu concordei”.

Hynek mal sabia que estava prestes a começar uma jornada para toda a vida que o tornaria um dos cientistas mais famosos e, às vezes, controversos do século 20. Tão pouco poderia ter adivinhado o quanto suas próprias ideias sobre os OVNIs mudariam ao longo desse período, enquanto ele persistia em trazer rigorosa investigação científica ao assunto.

“Eu mal ouvia falar em OVNIs em 1948 e, como qualquer outro cientista que eu conhecia, presumia que eles eram bobagens”, lembrou ele.

O Projeto Sign durou um ano, durante o qual a equipe analisou 237 casos. No relatório final de Hynek, ele observou que cerca de 32% dos incidentes poderiam ser atribuídos a fenômenos astronômicos, enquanto outros 35% tinham outras explicações, como balões, foguetes ou pássaros. Dos 33% restantes, 13% não ofereciam evidências suficientes para fornecer uma explicação. Os 20% restantes forneceram aos investigadores algumas evidências, mas que ainda não podiam ser explicadas.

A Força Aérea detestava usar o termo “objeto voador não identificado”, de modo que os misteriosos 20% foram simplesmente classificados como “não identificados”.

Em fevereiro de 1949, o Projeto Sign foi sucedido pelo Project Grudge (Projeto Rancor). Embora o Projeto Sign oferecesse pelo menos uma pretensão de objetividade científica, o Grudge parecia ter desprezado a ciência desde o início, assim como seu nome, que sugere “raiva”. Hynek, que não participou do Projeto Grudge, disse que a premissa deste “era que os OVNIs simplesmente não poderiam existir”. Talvez não surpreendentemente, o relatório, publicado no final de 1949, concluiu que os fenômenos não representavam perigo para os Estados Unidos e eram resultado de histeria em massa, fraudes deliberadas, doenças mentais ou objetos convencionais que as testemunhas interpretaram mal como sobrenaturais. Também sugeriu que o assunto não valia mais estudos.

O Projeto Blue Book

Isso poderia ter sido o fim, mas os incidentes com OVNIs continuaram, incluindo alguns relatos intrigantes dos próprios operadores de radar da Força Aérea. A mídia nacional começou a tratar o fenômeno com mais seriedade; A revista LIFE publicou uma reportagem de capa em 1952, e até o respeitado jornalista de TV Edward R. Murrow dedicou um programa ao tópico, incluindo uma entrevista com Kenneth Arnold, um piloto que em 1947 avistou objetos misteriosos sobre o Monte Rainier, no estado de Washington, e popularizou o termo “Disco Voador” – para saber mais sobre este caso leia aqui. A Força Aérea tinha pouca escolha a não ser reviver o Projeto Grudge, que logo se transformaria no Project Blue Book (Projeto Livro Azul).

Projeto Blue Book

Hynek ingressou no Projeto Blue Book em 1952 e permaneceria com ele até seu fim em 1969. Para ele, foi um show paralelo, enquanto continuava a lecionar e buscar outras pesquisas não-OVNI, no estado de Ohio. Em 1960, ele se mudou para a Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, para presidir seu departamento de astronomia.

Como antes, o papel de Hynek era revisar os relatórios de avistamentos de OVNIs e determinar se havia uma explicação astronômica lógica. Normalmente, isso envolvia muita papelada sem glamour; mas de vez em quando, para um caso especialmente intrigante, ele tinha a chance de sair em campo.

Lá, ele descobriu algo que talvez nunca tivesse aprendido simplesmente lendo os arquivos: o quão normais as pessoas que relataram terem visto OVNIs tendiam a ser. “As testemunhas que entrevistei poderiam estar mentindo, poderiam ser loucas ou poderiam ter alucinado coletivamente – mas acho que não”, lembrou ele em seu livro de 1977, The Hynek UFO Report.

“A posição deles na comunidade, a falta de motivo para perpetrar uma farsa, a própria perplexidade com a virada dos eventos que eles acreditavam ter testemunhado e muitas vezes a grande relutância em falar da experiência – tudo isso empresta uma realidade subjetiva à sua experiência com OVNIs”.

Pelo resto da vida, Hynek conviveria com o ridículo que as pessoas que relatavam um avistamento de OVNIs frequentemente tinham que suportar – o que, por sua vez, fazia com que incontáveis ​​números de outras pessoas nunca se manifestassem. Não era apenas injusto para os indivíduos envolvidos, mas significava uma perda de dados que poderia ser útil para os pesquisadores.

“Dada a natureza controversa do assunto, é compreensível que cientistas e testemunhas relutem em avançar”, diz Jacques Vallee, co-autor, junto com o Dr. Hynek, do livro The Edge of Reality: A Progress Report on Unidentified Flying Objects. “Porque a vida deles vai mudar. Há casos em que a casa deles é invadida. As pessoas jogam pedras nos filhos. Existem crises familiares, divórcio e assim por diante. Você se torna a pessoa que viu algo que outras pessoas não viram. E há muita suspeita ligada a isso”.

De Olho nos Céus e nos Soviéticos

No final da década de 1950, a Força Aérea enfrentou um problema mais urgente do que UFOs hipotéticos. Em 4 de outubro de 1957, a URSS surpreendeu o mundo ao lançar o Sputnik, o primeiro satélite espacial artificial e um sério golpe no senso de superioridade tecnológica dos americanos.

Nesse ponto, Hynek havia se mudado do estado de Ohio para trabalhar em um sistema de rastreamento de satélites em Harvard, observa Mark O’Connell em sua biografia de 2017, The Close Encounters Man. De repente, Hynek estava na TV e realizando entrevistas coletivas frequentes para garantir aos americanos que seus cientistas estavam monitorando de perto a situação. Em 21 de outubro de 1957, ele apareceu na capa da Revista LIFE com seu chefe, o astrônomo de Harvard, Fred Whipple e seu colega Don Lautman. Foi seu primeiro gosto da celebridade nacional, mas não seria o último.

Os cientistas do Smithsonian Astrophysical Observatory, doutores J. Allen Hynek e Fred Whipple analisando a órbita do Sputnik I no campus da Universidade de Harvard em 1957.

Com o Sputnik circulando a Terra a cada 98 minutos, muitas vezes visível a olho nu, muitos americanos começaram a olhar para o céu, e os avistamentos de OVNIs continuaram inabaláveis.

Na década de 1960, Hynek havia emergido como o maior especialista em OVNIs do país e talvez do mundo, citado amplamente em sua capacidade de consultor científico do Projeto Blue Book. Mas nos bastidores, ele se irritou com o que considerava ser o ponto principal do projeto, desmerecer os avistamentos de OVNIs. Ele também criticou seus procedimentos, julgando a equipe do Blue Book “grosseiramente inadequada”, sua comunicação com cientistas externos era “assustadora” e seus métodos estatísticos “nada menos que uma farsa”.

O sentimento, aparentemente, era mútuo. Em um manuscrito não publicado, descoberto pelo biógrafo O’Connell, o major da Força Aérea Hector Quintanilla, que chefiou o projeto de 1963 a 1969, escreve que considerava Hynek um “tendencioso”.

Então por que ele ficou? Hynek ofereceu várias explicações: “O mais importante, o Blue Book tinha o armazenamento de dados (por mais pobres que fossem), e minha associação com ele me deu acesso a esses dados”, escreveu ele.

Se Hynek frequentemente irritava desmascaradores de OVNIs, como Quintanilla, ele nem sempre agradava aos crentes.

Em 1966, por exemplo, ele foi para o Michigan para investigar vários relatos de luzes estranhas no céu. Quando ele ofereceu a teoria de que poderia ter sido uma ilusão de ótica envolvendo gás do pântano, ele se viu amplamente ridicularizado pela imprensa e o “gás do pântano” se tornou um motivo de piadas para os cartunistas de jornais. Mais seriamente, dois congressistas de Michigan, incluindo Gerald R. Ford (que mais tarde se tornou presidente), ficaram ofendidos com o aparente insulto aos cidadãos de seu estado e pediram uma audiência no Congresso.

Testemunhando na audiência, Hynek viu uma oportunidade de defender o caso que vinha apresentando à Força Aérea há anos, mas com pouco sucesso. “Especificamente, é minha opinião que o conjunto de dados, acumulados desde 1948, merecem um exame minucioso por parte de um grupo civil de cientistas físicos e sociais com o propósito expresso de determinar se realmente existe um grande problema”.

Hynek logo alcançaria seu desejo, ou assim parecia. Agora enfrentando maior escrutínio no Congresso, a Força Aérea estabeleceu um comitê civil de cientistas para investigar os OVNIs, presidido pelo físico da Universidade do Colorado, Dr. Edward U. Condon. Hynek, que não estaria no comitê, estava esperançoso no começo. Mas ele perdeu a fé dois anos depois, quando o comitê divulgou o que ficou conhecido como Relatório Condon.

Ele chamou o relatório de “desmedido” e “mal organizado” e o resumo introdutório de Condon de “singularmente inclinado”. Embora o relatório cite vários incidentes de OVNIs que seus pesquisadores não puderam explicar, conclui que “um estudo mais aprofundado sobre OVNIs provavelmente não poderia ser justificado”. Era exatamente o que Hynek não queria.

No ano seguinte, em 1969, o Projeto Blue Book foi encerrado definitivamente.

Um Novo Capítulo

O final do Projeto Blue Book provou ser um ponto de virada para Hynek. Como O’Connell escreveu: “ele se viu repentinamente liberado das frustrações, compromissos e pressões da Força Aérea dos EUA. Ele era um homem livre.”

Enquanto isso, avistamentos continuavam em todo o mundo. Hynek mais tarde brincou: “Os OVNIs aparentemente não leram o Relatório Condon”, e ele continuou sua pesquisa.

Em 1972, publicou seu primeiro livro, The UFO Experience. Entre suas contribuições na área, ele introduziu as classificações de Hynek sobre incidentes de OVNIs, que ele chamou de “Contatos Imediatos”.

  • Contatos Imediatos do Primeiro Grau: OVNIs vistos de perto o suficiente para perceber alguns detalhes;
  • Contatos Imediatos do Segundo Grau: o OVNI teve um efeito físico, como queimar árvores, assustar animais ou fazer com que os motores dos carros subitamente parassem;
  • Contatos Imediatos do Terceiro Grau: testemunhas relatam ter visto ocupantes dentro ou perto de um OVNI.

Embora menos lembrado agora, Hynek também forneceu três classificações para os contatos mais distantes. Aqueles envolvendo OVNIs vistos à noite (“Luzes Noturnas”), durante o dia (“Discos Diurnos”) ou em telas de radar (“Radar/Visual”).

O especialista em OVNIs, Dr. J. Allen Hynek segura seu cachimbo e um de seus editoriais de revista, enquanto trabalha como consultor técnico do filme ‘Contatos Imediatos do 3º Grau’.

A mais dramática das classificações de Hynek, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, se tornaria, é claro, o título de um filme de Steven Spielberg lançado em 1977. O’Connell relata que Hynek recebeu US$ 1.000 pelo uso do título, outros US$ 1.000 pelos direitos de usar histórias de seu livro e US$ 1.500 por três dias de consultoria técnica – dificilmente uma sorte inesperada para os padrões de Hollywood. Ele também teve uma breve participação especial no filme, interpretando um cientista impressionado quando a nave alienígena aparece de perto.

Em 1978, Hynek se aposentou do ensino, mas continuou a coletar e avaliar relatórios de OVNIs para o Center for UFO Studies, que ele havia fundado em 1973. A organização continua até hoje.

Hynek morreu em 1986, aos 75 anos, resultado de um tumor cerebral. Ele não havia resolvido o enigma dos OVNIs, mas, talvez mais do que qualquer outra pessoa, ele fez da tentativa de resolvê-lo uma busca científica legítima.

“A principal coisa que recebi de meu pai nessa coisa toda foi a importância de manter a mente aberta”, diz seu filho, Joel Hynek, que, como jovem operador de rádio amador, costumava gravar muitas das entrevistas de testemunhas de seu pai. Ele completou: “Ainda não sabemos tudo o que há para saber sobre o Universo, podem haver muitos aspectos da física que ainda desconhecemos”.