DNA humano contém indícios de hominídeo desconhecido

Nem Neandertal, nem Denisovano, ainda é só uma hipótese, mas se comprovada verdadeira, ela explicaria a existência de um pedaço curioso de DNA em nosso genoma.

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(Science Photo Library - KEVIN CURTIS/Getty Images)
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Os primeiros seres humanos anatomicamente similares aos Homo Sapiens de hoje surgiram na África há cerca de 300 mil anos (provavelmente nas redondezas da Etiópia, embora evidências recentes apontem outros cantos). As nossas primeiras expedições para fora do continente materno aconteceram um pouco depois, entre 115 mil e 130 mil anos. Há 80 mil anos atrás, já tínhamos chegado ao atual território da China.

Não foi uma migração no sentido atual da coisa – família inteiras peregrinando de fronteira em fronteira com a bagagem nas costas. Foi algo mais próximo do crescimento da periferia de uma grande cidade: os territórios ocupados e explorados pelos caçadores-coletores se expandiam ao longo das gerações, sem que ninguém tivesse a intenção consciente de viajar.

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No caminho dessa rápida expansão, nossos antepassados encontraram uma rapaziada peculiar: na Europa, os homens de Neandertal (nome do vale alemão em que o primeiro fóssil foi encontrado). Na Ásia e na Oceania, os homens de Denisova. Ambos eram extremamente parecidos com o Homo Sapiens – inclusive em capacidade cerebral. Os neandertais faziam pinturas, aplicavam analgésicos em dentes inflamados e usavam dióxido de manganês para acender fogueiras mais facilmente.

Nós brigamos e acasalamos com esses outros hominídeos e carregamos até hoje trechos de seu DNA. Com a ajuda de mudanças climáticas, fomos os prováveis responsáveis por sua extinção. E eles eram assim tão parecidos conosco porque eram descendentes do mesmo primata que deu origem a nós: o Homo Heidelbergensis.

O Homo Heidelbergensis surgiu também na África, há 800 mil anos. A árvore genealógica dos nossos antepassados é confusa e está em constante reconstrução, mas a hipótese mais aceita diz que os H. Heidelbergensis que ficaram na África deram origem a nós, os que chegaram à Europa se tornaram o homem de Neandertal, e os que chegaram à Ásia desembocaram no homem de Denisova.

Um estudo publicado em 16 de janeiro de 2019 na revista científica Nature Communications dá pistas de que a confusão é ainda maior do que imaginávamos. Uma colaboração entre quatro institutos de pesquisa em genética vasculhou a sequência de DNA de pessoas do leste da Ásia e da Oceania com ajuda de inteligência artificial, e encontrou um trecho que não é nem de Homo Sapiens, nem de Neandertal, nem de Denisova.

É possível que esse trecho seja proveniente de uma quarta espécie descendente do H. Heidelbergensis, diferentes das já conhecidas, e que também cruzou com o Homo Sapiens há uns 80 mil anos. Vale reforçar que essa é só uma hipótese, e novos estudos são necessários para confirmá-la. A descoberta de uma ossada desse ancestral ajudaria a testar a hipótese, mas fragmentos dos nossos antepassados, infelizmente, são uma raridade. Nas palavras do escritor americano Bill Bryson, todos esqueletos de hominídeo já encontrados caberiam na caçamba de um picape se você não se importasse em misturá-los.

“Nós sabemos que seres humanos modernos se reproduziram com os Neandertais e com os Denisovanos, mas ainda não há evidências certas de cruzamento com essa terceira espécie extinta”, afirmou em comunicado à imprensa Jaume Bertranpetit do Instituto de Biologia Evolutiva (IBE) em Barcelona, um dos cientistas que participou do estudo.