Novas evidências contradizem a teoria de que a sociedade da Ilha de Páscoa entrou em colapso

Os povos indígenas da Ilha de Páscoa, os Rapa Nui, teriam vivido um colapso social após o século XVII porque eles acabaram com os recursos naturais da ilha. Ou pelo menos essa é a principal teoria. Uma análise das ferramentas usadas pelos Rapa Nui para construir suas icônicas estátuas de pedra sugere uma conclusão muito diferente, apontando para a presença de uma sociedade altamente organizada e coesa.

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Moais da Ilha de Pascoa Foto: Dale Simpson Jr.
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Localizada a 3.700 km a oeste do Chile, a Ilha de Páscoa é um dos lugares mais remotos da Terra. A ilha de 170 quilômetros quadrados foi habitada pela primeira vez por um grupo de ilhéus do Pacífico entre 1.100 e 900 anos atrás, com essas pessoas formando a espinha dorsal de uma civilização que duraria centenas de anos. O povo Rapa Nui é famoso, é claro, por aquelas estátuas humanóides impressionantes conhecidas como Moai, as mais altas medem 10 metros de altura e pesam mais de 81 toneladas.

Em algum momento antes de 1700, no entanto, essa civilização vivenciou um colapso. A teoria convencional é que o povo Rapa Nui limpou a ilha de suas árvores, causando erosão generalizada e escassez de alimentos, que por sua vez criaram conflitos civis e violência interna.

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Uma nova pesquisa publicada no Journal of Pacific Archaeology agora oferece uma perspectiva diferente, mostrando que o povo Rapa Nui manteve uma próspera indústria de construção de ferramentas durante o tempo de sua alegada descida à “barbárie”.

“A ideia de competição e colapso na Ilha de Páscoa pode ser exagerada”, disse Dale Simpson Jr, principal autor do artigo e arqueólogo da Universidade de Queensland, em um comunicado. “Para mim, a indústria de escultura em pedra é uma evidência sólida de que havia cooperação entre famílias e grupos de artesanato”.

Para chegar a essa conclusão, Simpson e seus colegas estudaram as pedreiras das quais o povo Rapa Nui recolhiam suas matérias-primas, basalto vulcânico, para construir ferramentas como picaretas, formões e o toki, um tipo de machado. Essas ferramentas foram usadas para esculpir os Moai e canoas, entre outras coisas. Os pesquisadores também analisaram 17 ferramentas selecionadas dos 1.624 itens recentemente escavados perto da localização das estátuas Moai.

Os pesquisadores estavam tentando determinar de onde vieram as matérias-primas usadas para fabricar os artefatos e para ver se essas pessoas estavam extraindo o material perto de onde viviam. Para fazer isso, os pesquisadores cortaram pequenos pedaços de pedra do toki usando lasers, e usaram um espectrômetro de massa para analisar os diferentes produtos químicos encontrados nessas amostras. Os elementos químicos nestas amostras de basalto foram então comparados com os materiais encontrados em várias outras importantes pedreiras da ilha.

Moais da Ilha de Pascoa
Foto: Dale Simpson Jr.

Esta análise mostrou que a maioria dos toki veio de um único complexo de pedreiras conhecido como Rano Raraku. Esta descoberta, dizem os pesquisadores, parece sugerir que todos na ilha estavam usando um tipo de pedra, o que deve ter exigido colaboração. Então, ao invés de atacarem-se uns aos outros, de acordo com a narrativa popular, o povo Rapa Nui estava cooperando e compartilhando informações uns com os outros.

Simpson e seus colegas acreditam que é improvável que a civilização Rapa Nui tenha ficado sem recursos e lutado entre si até o ponto de extinção.

“Há muito mistério em torno da Ilha de Páscoa, porque é muito isolada, mas na ilha, as pessoas estavam, e ainda estão, interagindo”, disse Simpson. Esta sociedade foi depois dizimada pelos colonizadores e a escravidão, disse ele, mas a cultura Rapa Nui conseguiu sobreviver. “Há milhares de pessoas Rapa Nui vivas hoje – a sociedade não se foi”, disse ele.

Falando à Revista New Scientist, o arqueólogo Robert DiNapoli disse que a conclusão faz sentido, e que “nenhum clã em particular parecia ter controle ou acesso diferenciado a esses recursos, por isso deveriam estar cooperando para usá-los”. DiNapoli disse que é totalmente possível que essa sociedade passou da cooperação ao conflito, mas “simplesmente não há evidência arqueológica de conflito em grande escala entre os Rapa Nui”, acrescentando que “quase todas as evidências apontam para uma sociedade relativamente pacífica em sua pré-história”.

Não é preciso dizer que mais provas arqueológicas são necessárias para termos uma imagem mais clara desta civilização e as razões para a sua eventual extinção. De maneira reveladora, os pesquisadores admitem que sua interpretação precisa ser vista com cautela.

“O uso quase exclusivo de uma pedreira para produzir essas 17 ferramentas dá suporte a uma visão da especialização em artesanato baseada na troca de informações, mas não podemos saber, neste estágio, se a interação foi colaborativa”, disse Jo Anne Van Tilburg, coautora do novo estudo e pesquisadora da Universidade da Califórnia. “Também pode ter sido coercivo de alguma forma. O comportamento humano é complexo. Esta teoria incentiva novos estudos, e nossas escavações continuam a lançar uma nova luz sobre as esculturas Moai ”.