Primeira missão arqueológica brasileira em tumba egípcia revela estátuas, múmias e sarcófagos

Segundo pesquisadores, tumba era de um nobre ligado a um dos faraós mais poderosos do Egito Antigo

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Arqueólogo fazendo análise de pintura na Tumba Tebana 123, no Egito — Foto: Bape/Divulgação
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Aos 7 anos, José Roberto Pellini teve seu primeiro contato com o Egito Antigo nos livros da biblioteca de sua mãe. No próximo janeiro, cerca de 40 anos depois, o arqueólogo e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) segue rumo à cidade egípcia de Luxor, onde vai coordenar a primeira missão arqueológica brasileira no país.

A missão de escavação, restauração e conservação da Tumba Tebana 123, na margem oeste do Rio Nilo, é chamada de Projeto Amenenhet, em referência ao proprietário do local.

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A pesquisa integra o Programa Arqueológico Brasileiro no Egito (Bape, na sigla em inglês), criado em 2015 na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Em 2016, o projeto foi aprovado pelo Ministério das Antiguidades egípcio e, no ano passado, foi levado para a UFMG pelo professor Pellini, que passou a integrar o Departamento de Antropologia e Arqueologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich).

Professor José Roberto Pellini coordena primeira missão arqueológica brasileira no Egito — Foto: Pedro Ângelo/G1

O arqueólogo contou que a equipe já fez algumas viagens para o Egito para os trabalhos iniciais. De acordo com Pellini, as primeiras etapas já revelaram que a tumba tem um grande potencial. Em janeiro, um grupo com especialistas brasileiros, argentinos e egípcios inicia os trabalhos de escavação.

A coordenadora de escavação do projeto, Caroline Murta Lemos, contou que está com uma grande expectativa para a etapa do próximo ano. “A gente também fez uma limpeza superficial, porque na superfície da tumba tinha muito material, tinha muito sedimento. Então a gente fez a limpeza desses sedimentos. A gente limpou material, numerou, catalogou e acondicionou o material”, acrescentou.

O dono da tumba

Os arqueólogos vão explorar a sala anexa à câmara funerária, que tem cerca de 12 metros quadrados e pé direito de 5 metros. A Tumba Tebana 123 é de Amenenhet, sacerdote que ocupava diversos cargos, entre os quais o de contador de pães, que eram distribuídos como parte dos salários no Egito Antigo. O nobre serviu ao faraó Tutmosis III, da 18ª Dinastia, por volta de 1.600 a.C.

Em formato de T, a tumba tem 25 x 3 metros de frente e um corredor principal de 50 x 3 metros. Segundo professor José Roberto Pellini, trata-se de uma tumba clássica da 18ª Dinastia, que tem a estátua do morto no final do corredor e salas que reúnem seus bens.

“Ele provavelmente era uma figura muito importante dentro da elite, dentro da nobreza egípcia, porque, por exemplo, o nome de Tutmósis III está gravado na tumba. A gente na tumba tem um cartucho real com o nome de Tutmósis III. Não que seja uma coisa extremamente rara, mas é uma coisa que não era tão comum assim pro período. Então ele mostrava uma certa proximidade ao faraó”, salientou Pellini.

“As limpezas que a gente fez preparando a etapa de escavação de 2019 mostrou a presença de objetos bem conservados. Pedaços grandes de estátuas, de sarcófagos. Numa das salas que a gente vai escavar esse ano tem duas múmias logo na superfície, uma estátua de Hórus quase inteira que a gente encontrou”, destacou.

O arqueólogo explicou que Tutmósis III foi o faraó que mais expandiu as fronteiras egípcias na época. Segundo Pellini, ele foi superado somente pelo seu sucessor, Ramsés II. “O Egito nessa época é a principal nação do mundo. Nós estamos falando aí de 1.550 antes de Cristo. E o Amenenhet trabalhou dentro desse círculo de poder, aonde o Egito figurava como uma principal nação na antiguidade”.

O professor destacou que a tumba nunca foi pesquisada, mas há indícios de que comunidades da região de Kurna tenham habitado o local no século XVI. Questões como essa serão respondidas a partir do próximo janeiro. De acordo com José Pellini, a parte de arqueologia e escavação do projeto deve durar cerca de seis anos.

Ainda segundo o arqueólogo, a tumba tem uma qualidade de relevo e pintura “absolutamente excepcional”. “Ela mostra relevos, talvez, alguns dos mais bonitos que eu já vi no Egito. Embora a tumba esteja bastante danificada, precisando de restauração, os relevos são realmente especiais”, opinou o professor.

Cena de oferenda na Tumba Tebana 123, no Egito — Foto: Bape/Divulgação

Novas narrativas

Além do projeto arqueológico, a equipe pretende pôr também em ação o projeto cultural, que prevê o desenvolvimento de narrativas alternativas ao discurso científico, “mostrando outras vozes que pensam e significam e retrabalham a tumba”.

De acordo com o arqueólogo, outra preocupação da equipe é pesquisar como as comunidades locais se relacionam com a tumba atualmente. Ainda segundo ele, depois do fim do trabalho de conservação, o objetivo é que a tumba seja aberta para o turismo.

Amadurecimento

Para o professor Pellini, a primeira missão coordenada por uma universidade brasileira representa um amadurecimento para a arqueologia no país. Segundo ele, o Egito é escavado e estudado há mais de 300 anos por países como França, Inglaterra e, mais recentemente, Estados Unidos e Japão.

“A arqueologia sul-americana tem essa preocupação com o papel social do arqueólogo, o arqueólogo enquanto agente formador de conhecimento e responsável por esse conhecimento. Nós não estamos no Egito para ensinar ninguém. Nós estamos nos Egito para cooperar e aprender também. Então há uma troca. E isso faz parte um pouco dessa arqueologia sul-americana que está chegando nesse cenário dominado por potências hegemônicas”, afirmou.

Parte dos recursos para a pesquisa são fornecidos pela UFMG e pela Universidade Nacional de Córdoba, na Argentina. A partir de 2019, o projeto também deve contar com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

Com dezenas de livros sobre o Egito em sua sala, José Roberto Pellini conta que se sente emocionado com o projeto. Sorridente, a coordenadora de escavação, Caroline Murta, diz que é uma “sortuda”. Já a estudante de arqueologia Lorrana Dauari acrescenta: “estou realizando um sonho. Desde os 11, 12 anos eu sonho em ser egiptóloga”. Com apenas 20 anos, ela contribui com o projeto no Brasil e aguarda a etapa de 2020 para fazer as malas para o Egito.